domingo, 29 de agosto de 2010

Mãe Ilha




Nessa manhã as garças não voaram
E dos confins da luz um deus chamou.
Docemente teus cílios se fecharam
Sobre o olhar onde tudo começou.

A terra uivou. Todas as cores mudaram
O mar emudeceu. O ar parou.
Escuros véus de pranto o sol taparam
De azáleas lívidas a ilha se cercou.

A que pélago o esquife te levava?
Não ao termo. A não chorar os mortos.
Teu sumo espiritual florido ensina.

E se o mundo em ti principiava,
No teu mistério entre astros absortos,
Suavemente, ó mãe, tudo termina. 



"Natália Correia"

domingo, 22 de agosto de 2010

Bruma




Tenho em mim como uma bruma
Que nada é nem contém
A saudade de coisa nenhuma,
O desejo de qualquer bem.

Sou envolvido por ela
Como por um nevoeiro
E vejo luzir a última estrela
Por cima da ponta do meu cinzeiro.

Fumei a vida. Que incerto
Tudo quanto vi ou li!
E todo o mundo é um grande livro aberto
Que em ignorada língua me sorri.

"Fernando Pessoa"

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Beleza



Às vezes, em dias de luz perfeita e exacta,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às cousas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das cousas: são belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível! 

"Aberto Caeiro"

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Barco


.


Margens inertes
abrem os seus braços
Um grande barco no silêncio parte.
Altas gaivotas nos ângulos a pique,
Recém-nascidas à luz, perfeita a morte.
Um grande
barco parte abandonando
As colunas de um cais ausente e branco.
E o seu rosto busca-se emergindo
Do corpo sem cabeça da cidade.
Um grande
barco desligado parte
Esculpindo de frente o vento norte.
Perfeito azul do mar, perfeita a morte
Formas claras e nítidas de espanto.


"Sophia de Mello Breyner Andersen"

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Ilhas afortunadas


Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguem que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criaança
Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas se vamos dispeertando,
Cala a voz, e há só o mar.


"Fernando Pessoa"

quinta-feira, 29 de julho de 2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

O lago


Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo.
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida? 


"Fernando Pessoa" 

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A lagoa



 Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
E calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.Eu vi a lagoa... 



"Carlos Drummond de Andrade"

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Verão


Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar
caminha para o mar pelo verão

                                          "Ruy Belo" 

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Gamo

O Gamo, Cervus dama, é o Cervídeo mais sociável com o ser humano.
Tal como a maioria dos Cervídeos, só os machos possuem hastes que nesta espécie são espalmadas. As hastes são estruturas ósseas de crescimento descontínuo, que caem anualmente na Primavera, crescendo de imediato umas novas, que atingem o seu tamanho máximo em finais do mês de Julho.
Durante o Outono, os machos adultos lutam entre si pela posse das fêmeas. Durante esta altura, emitem roncos aos quais se chama brama. A brama tem como objectivo despertar a atenção das fêmeas e dissuadir machos concorrentes.
As crias, normalmente 1 por fêmea, nascem em meados de Maio/Junho, após cerca de 7 meses de gestação.
Possui duas pelagens ao longo do ano: a de Inverno de tons escuros e homogénea e a de Verão de tons mais claros e mosqueada.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Bufo Real


É a maior rapina nocturna existente na Europa, podendo atingir os 69 cm de comprimento e os 2-3 Kg de peso.
Ave de aspecto robusto com grandes penachos auriculares de penas e grandes olhos alaranjados.
O voo é silencioso, alternando o bater das asas com o planar, sobretudo em voos baixos de observação.
Alimenta-se essencialmente de roedores e de coelhos.
Nidifica em buracos de rochas ou em ninhos abandonados de outras rapinas.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Coruja das torres



Esta rapina atinge comprimentos da ordem dos 35 cm.
O voo é silencioso batendo larga e suavemente as asas.
Alimenta-se de basicamente de roedores até 200g, pois não consegue transportar pesos superiores.
Nidifica em lugares escuros de edifícios, buracos de rochas ou mesmo cavidades no solo.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Gaiola de vidro


Como paredes
através das quais
o mundo vemos pelo ser dos outros
quem vamos conhecendo nos rodeia
multiplicando as faces da gaiola
de que se tece em volta a nossa vida.

No espaço dentro (mas que não depende
do número de faces ou distância entre elas)
nós somos quem somos: só distintos
de cada um dos outros, para quem
apenas somos a face em muitas,
pelo que em nós se torna, além do espaço,
uma visão de espelhos transparentes.

Mas o que nos distingue não existe 



"Jorge de Sena"

sábado, 5 de junho de 2010

Primavera


Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores,
Pois que Maio chegou,
Revesti-o de clâmides de cores!
Que eu, dar, flor, já não dou.

Eu, cantar, já não canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul, calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar, já não canto.

Eu, invernos e outonos recalcados
Regelaram meu ser neste arrepio...
Aquece tu, ó sol, jardins e prados!
Que eu, é de mim o frio. 


"José Régio" 

terça-feira, 1 de junho de 2010

Quando as crianças brincam


Quando as crianças brincam
E eu as ouço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no meu coração. 


"Fernando Pessoa" 

sexta-feira, 28 de maio de 2010


 
Os leitores extraem dos livros, consoante o seu carácter, a exemplo da abelha ou da aranha que, do suco das flores retiram, uma o mel, a outra o veneno.
 "Friedrich Nietzche"

sábado, 22 de maio de 2010

terça-feira, 11 de maio de 2010

Acima da verdade estão os deuses


Acima da verdade estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo.

Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como às flores,

Porque visíveis à nossa alta vista,
São tão reais como reais as flores
E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza. 


"Ricardo Reis (Fernando Pessoa)" 

terça-feira, 4 de maio de 2010

De palavra em palavra


De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.

"Eugénio de Andrade"

terça-feira, 27 de abril de 2010

Flores que colho



Flores que colho, ou deixo,
Vosso destino é o mesmo.

Via que sigo, chegas
Não sei aonde eu chego.

Nada somos que valha,
Somo-lo mais que em vão.

“Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 21 de abril de 2010


Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.


Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.


"António Gedeão"

sábado, 17 de abril de 2010

"A Alguém que partiu e me deixa muita saudade"



Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se,
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

"Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)"

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Castelo Rodrigo





 Aldeia medieval, erguida no topo de uma colina isolada, a 820 metros de altitude, oferece uma esplêndida vista sobre os campos e serras em redor. Esta antiga vila fortificada, totalmente recuperada no âmbito do Programa de Recuperação de Aldeias Históricas, guarda vestígios de ocupação humana que remontam ao Paleolítico.


terça-feira, 6 de abril de 2010

Eu quero ter tempo


Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido.


"Alberto Caeiro"

sábado, 27 de março de 2010

O tempo passa?


O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer a toda hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.


"Carlos Drummond de Andrade" 

quinta-feira, 4 de março de 2010

A Neve





A NEVE PÔS uma toalha calada sobre tudo.
Não se sente senão o que se passa dentro de casa.
Embrulho-me num cobertor e não penso sequer em pensar.
Sinto um gozo de animal e vagamente penso,
E adormeço sem menos utilidade que todas as ações do mundo.

"Alberto Caeiro"

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A felicidade



A felicidade é uma flor que não se deve colher

"André Maurois" 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A volta ao mundo


É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...


"Miguel Torga"