sábado, 24 de março de 2012

sexta-feira, 16 de março de 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

quinta-feira, 1 de março de 2012

Inverno


O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos. Claro, o Inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja Inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
Nossa caveira breve.


"Ricardo Reis (Fernando Pessoa)"

sábado, 25 de fevereiro de 2012

"Crepúsculo"


É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.


"David Mourão Ferreira"

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

"Aqui está-se sossegado"


Aqui está-se sossegado,
Longe do mundo e da vida,
Cheio de não ter passado,
Até o futuro se olvida.
Aqui está-se sossegado.

"Excerto do poema de Fernando Pessoa"

sábado, 11 de fevereiro de 2012

domingo, 5 de fevereiro de 2012

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

"Não quero rosas desde que haja rosas"

 
 
Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?
Não
quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.
Para quê?...
Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...

"Fernando Pessoa"

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Palácio


Sou o fantasma de um rei
Que sem cessar percorre
As salas de um palácio abandonado...
Minha história não sei...
Longe em mim, fumo de eu pensá-la, morre
A ideia de que tive algum passado...

Eu não sei o que sou.
Não sei se sou o sonho
Que alguém do outro mundo esteja tendo...
Creio talvez que estou
Sendo um perfil casual de rei tristonho
Numa história que um deus está relendo...
"Fernando Pessoa"

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

domingo, 15 de janeiro de 2012

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Ali ternina tudo


Ali termina tudo
e não termina:
ali começa tudo
se despedem os rios no gelo,
o ar se há casado com a neve,
não há ruas nem cavalos
e o único edifício
o construiu a pedra.
Ninguém habita o castelo
nem as almas perdidas
que frio e vento frio
amedrontaram:
é sozinha ali a solidão do mundo,
e por isso a pedra
se fez música,
elevou suas delgadas estaturas,
se levantou para gritar ou cantar,
porém ficou muda.
Só o vento,
o açoite
do Pólo Sul que assobia,
só o vazio branco
e um som de pássaro de chuva
sobre o castelo da solidão.

"Pablo Neruda"

domingo, 8 de janeiro de 2012

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Onda


Onda que, enrolada, tornas,
Pequena, ao mar que te trouxe
E ao recuar te transtornas
Como se o mar nada fosse,

Porque é que levas contigo
Só a tua cessação,
E, ao voltar ao mar antigo,
Não levas meu coração?

Há tanto tempo que o tenho
Que me pesa de o sentir.
Leva-o no som sem tamanho
Com que te ouço fugir!

"Fernando Pessoa"

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Amanhecer



sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa
Que tem por corpo o frio do ar.

Neste momento insone e triste
Em que não sei quem hei-de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.

Tudo isto me parece tudo.
E é uma noite a ter um fim
Um negro astral silêncio surdo
E não poder viver assim.

(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, silêncio mudo –
Ah, nada é isto, nada é assim!)

"Fernando Pessoa"

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Mudam-se os tempos...


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o Mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.


"Luis de Camões"

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

domingo, 4 de dezembro de 2011

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

"A arte de ser feliz"


Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirandocom a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era umaespécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava paraas plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedosmagros e meu coração ficava completamente feliz.Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezesencontro nuvens espessas. Avistocrianças que vão para a escola. Pardais quepulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar,cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existemdiante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender aolhar, para poder vê-las assim.
"Cecília Meireles"

domingo, 27 de novembro de 2011

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

terça-feira, 15 de novembro de 2011

"No entardecer da terra"


No entardecer da terra
O sopro do longo Outono
Amareleceu o chão.
Um vago vento erra,
Como um sonho mau num sono,
Na lívida solidão.

Soergue as folhas, e pousa
As folhas, e volve, e revolve,
E esvai-se inda outra vez.
Mas a folha não repousa,
E o vento lívido volve
E expira na lividez.

Eu já não sou quem era;
O que eu sonhei, morri-o;
E até do que hoje sou
Amanhã direi, quem dera
Volver a sê-lo!... Mais frio
O vento vago voltou.

"Fernando Pessoa"

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

"Do vale à montanha"


Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados.
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.

"Fernando Pessoa" (Excerto)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

sábado, 5 de novembro de 2011

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

terça-feira, 1 de novembro de 2011

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

sábado, 22 de outubro de 2011

Gato




Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

"Alexandre O`Neill"

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Rio que tudo arrasta

 

                                                       "Bertold Brecht"

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

"Canção de Outono"



Perdoa-me, folha seca, não posso cuidar de ti. Vim para amar neste mundo, e até do amor me perdi. De que serviu tecer flores pelas areias do chão, se havia gente dormindo sobre o própro coração? E não pude levantá-la! Choro pelo que não fiz. E pela minha fraqueza é que sou triste e infeliz. Perdoa-me, folha seca! Meus olhos sem força estão velando e rogando áqueles que não se levantarão... Tu és a folha de outono voante pelo jardim. Deixo-te a minha saudade- a melhor parte de mim. Certa de que tudo é vão. Que tudo é menos que o vento, menos que as folhas do chão


"Cecília Meireles"

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Quero acabar entre rosas



Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância.
Os crisântemos de depois, desfolhei-os a frio.
Falem pouco, devagar.
Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento.
O que quis? Tenho as mãos vazias,
Crispadas flebilmente sobre o colcha longínqua.
O que pensei? Tenho a boca seca, abstracta.
O que vivi? Era tão bom dormir!


"Álvao de Campos (Fernando Pessoa"



segunda-feira, 26 de setembro de 2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

domingo, 11 de setembro de 2011

"Sê paciente"



Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.


"Eugénio de Andrade"

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Bendito seja eu por tudo o que não sei


Bendito seja eu por tudo o que não sei
gozo tudo isso como quem sabe que há o sol


"Fernando Pessoa"

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

sábado, 27 de agosto de 2011

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Giuliano


Chamada para o almoço na Fazenda S.Francisco-Pantanal, Brasil.