segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Rio que tudo arrasta

 

                                                       "Bertold Brecht"

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

"Canção de Outono"



Perdoa-me, folha seca, não posso cuidar de ti. Vim para amar neste mundo, e até do amor me perdi. De que serviu tecer flores pelas areias do chão, se havia gente dormindo sobre o própro coração? E não pude levantá-la! Choro pelo que não fiz. E pela minha fraqueza é que sou triste e infeliz. Perdoa-me, folha seca! Meus olhos sem força estão velando e rogando áqueles que não se levantarão... Tu és a folha de outono voante pelo jardim. Deixo-te a minha saudade- a melhor parte de mim. Certa de que tudo é vão. Que tudo é menos que o vento, menos que as folhas do chão


"Cecília Meireles"

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Quero acabar entre rosas



Quero acabar entre rosas, porque as amei na infância.
Os crisântemos de depois, desfolhei-os a frio.
Falem pouco, devagar.
Que eu não oiça, sobretudo com o pensamento.
O que quis? Tenho as mãos vazias,
Crispadas flebilmente sobre o colcha longínqua.
O que pensei? Tenho a boca seca, abstracta.
O que vivi? Era tão bom dormir!


"Álvao de Campos (Fernando Pessoa"



segunda-feira, 26 de setembro de 2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

domingo, 11 de setembro de 2011

"Sê paciente"



Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.


"Eugénio de Andrade"

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Bendito seja eu por tudo o que não sei


Bendito seja eu por tudo o que não sei
gozo tudo isso como quem sabe que há o sol


"Fernando Pessoa"

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

sábado, 27 de agosto de 2011

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Giuliano


Chamada para o almoço na Fazenda S.Francisco-Pantanal, Brasil.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Crepúsculo"


É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
quando a noite se destaca
da cortina;
quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
quando a força de vontade
ressuscita;
quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
e quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz livida, a palavra
despedida.

"David Mourão Ferreira"

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

domingo, 7 de agosto de 2011

terça-feira, 2 de agosto de 2011

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Pantanal

Pantanal, é um bioma constituído principalmente por uma savana estépica, alagada na sua maior parte, com 250 mil km² de extensão, altitude média de 100 metros, situado no sul de Mato Grosso e no noroeste de Mato Grosso do Sul, ambos Estados do Brasil. considerado pela UNESCO Património Mundial Natural e Reserva da Biosfera.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Mistério do sem-fim


No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta


"Cecília Meireles"

sábado, 16 de julho de 2011

Espelho


Depus a máscara e vi-me ao espelho. –
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,


O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.


"Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)"

segunda-feira, 11 de julho de 2011

sábado, 2 de julho de 2011

Viajar

Viajar! Perder países!
 
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
 
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!
 
Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.

"Fernando Pessoa"

domingo, 26 de junho de 2011

quinta-feira, 23 de junho de 2011

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Liberdade


— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.    


"Miguel Torga"

domingo, 12 de junho de 2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Catedral de Brasilia


Meu gesto que destrói
A mole das formigas,
Tomá-lo-ão elas por de um ser divino;
Mas eu não sou divino para mim.

Assim talvez os deuses
Para si o não sejam,
E só de serem do que nós maiores
Tirem o serem deuses para nós.

Seja qual for o certo,
Mesmo para com esses
Que cremos serem deuses, não sejamos
Inteiros numa fé talvez sem causa. 


Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

"Hoje de manhã saí cedo"



Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar. 



"Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)"

sexta-feira, 27 de maio de 2011

"De palavra em palavra"


De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.


"Eugénio de Andrade" 

segunda-feira, 23 de maio de 2011

sábado, 21 de maio de 2011

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Arara Azul


Em vias de extinção.

terça-feira, 26 de abril de 2011

sexta-feira, 22 de abril de 2011

"Tu tens medo"


Tu tens um medo:

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.


E então serás eterno.

"Cecilia Meireles"

domingo, 17 de abril de 2011

sábado, 9 de abril de 2011

O convertido



Entre os
filhos d um século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
D uma ânsia impotente de infinito.


Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza ...
Mas , um dia, abalou-se-me a firmeza,
Deu-me rebate o coração contrito!


Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para deus minha alma triste!


Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!

"Antero de Quental"

domingo, 3 de abril de 2011

De palavra em palavra



De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.

"Eugénio de Andrade"

segunda-feira, 28 de março de 2011

O poeta


O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.


E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

"Fernando Pessoa"

domingo, 27 de março de 2011

Ciência

 
Querem que vos ensine o modo de chegar à ciência verdadeira? Aquilo que se sabe, saber que se sabe; aquilo que não se sabe, saber que não se sabe; na verdade é este o saber.

"Confúcio

sábado, 19 de março de 2011

"O peso do Amor"


O meu amor me pesa.
Toneladas de mim
abraçam a camélia
do secreto jardim.

O meu amor me leva
através das galáxias
por céus de luz e trevas
fundidas em falácias.


O meu amor é leve:
um fio de cabelo
pousado no universo.


O meu amor é breve:
o apelo de um pêlo
que se transforma em verso.

"Lêdo Ivo"

sábado, 12 de março de 2011

Hoje de manhã saí muito cedo



Hoje de manhã saí muito cedo,

Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...


Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.


Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

"Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)"

sábado, 5 de março de 2011

terça-feira, 1 de março de 2011

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Dorme a noite



Dorme a noite encostada nas colinas.
Como um sonho de paz e esquecimento
Desponta a lua. Adormeceu o vento,
Adormeceram vales e campinas...

Mas a mim, cheia de atracções divinas,
Dá-me a noite rebate ao pensamento.
Sinto em volta de mim, tropel nevoento,
Os Destinos e as Almas peregrinas!

Insondável problema!... Apavorado
Recúa o pensamento!... E já prostrado
E estúpido á força de fadiga,

Fito inconsciente as sombras visionárias,
Enquanto pelas praias solitárias
Ecoa, ó mar, a tua voz antiga. 


"Antero de Quental"

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

"Jardim perdido"



Jardim
em flor, jardim de impossessão,
Transbordante de imagens mas informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.
A verdura
das árvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.
A luz trazia
em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidades e suspensão.
Mas cada
gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido. 


"Sophia de Mello Breyner Andresen"