terça-feira, 3 de agosto de 2010

Ilhas afortunadas


Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguem que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criaança
Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas se vamos dispeertando,
Cala a voz, e há só o mar.


"Fernando Pessoa"

quinta-feira, 29 de julho de 2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

O lago


Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo.
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trémulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida? 


"Fernando Pessoa" 

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A lagoa



 Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se ele é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
E calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.Eu vi a lagoa... 



"Carlos Drummond de Andrade"

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Verão


Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar
caminha para o mar pelo verão

                                          "Ruy Belo" 

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Gamo

O Gamo, Cervus dama, é o Cervídeo mais sociável com o ser humano.
Tal como a maioria dos Cervídeos, só os machos possuem hastes que nesta espécie são espalmadas. As hastes são estruturas ósseas de crescimento descontínuo, que caem anualmente na Primavera, crescendo de imediato umas novas, que atingem o seu tamanho máximo em finais do mês de Julho.
Durante o Outono, os machos adultos lutam entre si pela posse das fêmeas. Durante esta altura, emitem roncos aos quais se chama brama. A brama tem como objectivo despertar a atenção das fêmeas e dissuadir machos concorrentes.
As crias, normalmente 1 por fêmea, nascem em meados de Maio/Junho, após cerca de 7 meses de gestação.
Possui duas pelagens ao longo do ano: a de Inverno de tons escuros e homogénea e a de Verão de tons mais claros e mosqueada.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Bufo Real


É a maior rapina nocturna existente na Europa, podendo atingir os 69 cm de comprimento e os 2-3 Kg de peso.
Ave de aspecto robusto com grandes penachos auriculares de penas e grandes olhos alaranjados.
O voo é silencioso, alternando o bater das asas com o planar, sobretudo em voos baixos de observação.
Alimenta-se essencialmente de roedores e de coelhos.
Nidifica em buracos de rochas ou em ninhos abandonados de outras rapinas.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Coruja das torres



Esta rapina atinge comprimentos da ordem dos 35 cm.
O voo é silencioso batendo larga e suavemente as asas.
Alimenta-se de basicamente de roedores até 200g, pois não consegue transportar pesos superiores.
Nidifica em lugares escuros de edifícios, buracos de rochas ou mesmo cavidades no solo.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Gaiola de vidro


Como paredes
através das quais
o mundo vemos pelo ser dos outros
quem vamos conhecendo nos rodeia
multiplicando as faces da gaiola
de que se tece em volta a nossa vida.

No espaço dentro (mas que não depende
do número de faces ou distância entre elas)
nós somos quem somos: só distintos
de cada um dos outros, para quem
apenas somos a face em muitas,
pelo que em nós se torna, além do espaço,
uma visão de espelhos transparentes.

Mas o que nos distingue não existe 



"Jorge de Sena"

sábado, 5 de junho de 2010

Primavera


Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores,
Pois que Maio chegou,
Revesti-o de clâmides de cores!
Que eu, dar, flor, já não dou.

Eu, cantar, já não canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul, calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar, já não canto.

Eu, invernos e outonos recalcados
Regelaram meu ser neste arrepio...
Aquece tu, ó sol, jardins e prados!
Que eu, é de mim o frio. 


"José Régio" 

terça-feira, 1 de junho de 2010

Quando as crianças brincam


Quando as crianças brincam
E eu as ouço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no meu coração. 


"Fernando Pessoa" 

sexta-feira, 28 de maio de 2010


 
Os leitores extraem dos livros, consoante o seu carácter, a exemplo da abelha ou da aranha que, do suco das flores retiram, uma o mel, a outra o veneno.
 "Friedrich Nietzche"

sábado, 22 de maio de 2010

terça-feira, 11 de maio de 2010

Acima da verdade estão os deuses


Acima da verdade estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo.

Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como às flores,

Porque visíveis à nossa alta vista,
São tão reais como reais as flores
E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza. 


"Ricardo Reis (Fernando Pessoa)" 

terça-feira, 4 de maio de 2010

De palavra em palavra


De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia.

"Eugénio de Andrade"

terça-feira, 27 de abril de 2010

Flores que colho



Flores que colho, ou deixo,
Vosso destino é o mesmo.

Via que sigo, chegas
Não sei aonde eu chego.

Nada somos que valha,
Somo-lo mais que em vão.

“Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 21 de abril de 2010


Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.


Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.


"António Gedeão"

sábado, 17 de abril de 2010

"A Alguém que partiu e me deixa muita saudade"



Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se,
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

"Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)"

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Castelo Rodrigo





 Aldeia medieval, erguida no topo de uma colina isolada, a 820 metros de altitude, oferece uma esplêndida vista sobre os campos e serras em redor. Esta antiga vila fortificada, totalmente recuperada no âmbito do Programa de Recuperação de Aldeias Históricas, guarda vestígios de ocupação humana que remontam ao Paleolítico.


terça-feira, 6 de abril de 2010

Eu quero ter tempo


Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido.


"Alberto Caeiro"

sábado, 27 de março de 2010

O tempo passa?


O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer a toda hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.


"Carlos Drummond de Andrade" 

quinta-feira, 4 de março de 2010

A Neve





A NEVE PÔS uma toalha calada sobre tudo.
Não se sente senão o que se passa dentro de casa.
Embrulho-me num cobertor e não penso sequer em pensar.
Sinto um gozo de animal e vagamente penso,
E adormeço sem menos utilidade que todas as ações do mundo.

"Alberto Caeiro"

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A felicidade



A felicidade é uma flor que não se deve colher

"André Maurois" 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A volta ao mundo


É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...


"Miguel Torga"

sábado, 23 de janeiro de 2010

Madrugada


 Agarro a madrugada
como se fosse uma criança
uma roseira entrelaçada
uma videira de esperança
tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem por força da vontade
de trabalhar nunca se cansa.

Vou pela rua
desta lua
que no meu Tejo acende o cio
vou por Lisboa maré nua
que se deságua no Rossio.

Eu sou um homem na cidade
que manhã cedo acorda e canta
e por amar a liberdade
com a cidade se levanta.


Vou pela estrada
deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresça na vela da canoa.

Sou a gaivota
que derrota
todo o mau tempo no mar alto
eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.

E quando agarro a madrugada
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada
um malmequer azul na cor.

O malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém
o malmequer desta cidade
que me quer bem que me quer bem!

Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis que me quer bem!


"Ary dos Santos" 

domingo, 17 de janeiro de 2010

A velha Ponte

PONTE DE VALE DE TELHAS S/RIO RABAÇAL.

Trata-se de uma ponte de origem romana, profundamente transformada nas épocas medieval e moderna. Tem um tabuleiro em cavalete lançado sobre o rio Rabaçal, com uma largura máxima de cerca de quatro metros, assente em cinco arcos de volta perfeita, em cantaria, com pegões cegos. O arco central é o que regista maior amplitude enquanto os restantes são de menores dimensões mas desiguais entre si, sendo o mais próximo da margem aquele que tem uma abertura mais reduzida.
presenta quatro talha-mares triangulares de ambos os lados da ponte, altos, escalonados e de remate piramidal, implantados no espaço entre os arcos. Conserva seis gárgulas, uma por cima de cada talha-mar e as duas restantes por cima dos arcos mais próximos da margem.
O pavimentoé em lajes de granito e conserva um parapeito e guardas em cantaria. O aparelho dos paramentos é em fiadas pseudo-isódomas, mas revela os sucessivos arranjos ao incorporar silhares com marca de "forfex" e outros siglados. O intradorso do arco preserva uma série de agulheiros para encaixe dos cimbros.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Lágrimas



Saudoso já deste Verão que vejo,
Lágrimas para as flores dele emprego
Na lembrança invertida
De quando hei-de perdê-las.
Transpostos os portais irreparáveis
De cada ano, me antecipo a sombra
Em que hei-de errar, sem flores,
No abismo rumoroso.
E colho a rosa porque a sorte manda.
Marcenda, guardo-a; murche-se comigo
Antes que com a curva
Diurna da ampla terra. 



"Ricardo Reis (Fernando Pessoa)"

domingo, 3 de janeiro de 2010

Simbolos


Símbolos? Estou farto de símbolos...
Mas dizem-me que tudo é símbolo.
Todos me dizem nada.
Quais símbolos? Sonhos. –
Que o sol seja um símbolo, está bem...
Que a lua seja um símbolo, está bem...
Que a terra seja um símbolo, está bem...
Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa,
E ele rompe as nuvens e aponta para trás das costas
Para o azul do céu?
Mas quem repara na lua senão para achar
Bela a luz que ela espalha, e não bem ela?
Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
Chama terra aos campos, às árvores, aos montes.
Por uma diminuição instintiva,
Porque o mar também é terra...

Bem, vá, que tudo isso seja símbolo...
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra,
Mas neste poente precoce e azulando-se
O sol entre farrapos finos de nuvens,
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,
E o que fica da luz do dia
Doura a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina
Onde demorava outrora com o namorado que a deixou?
Símbolos? Não quero símbolos...
Queria – pobre figura de miséria e desamparo! –
Que o namorado voltasse para o costureira.

"'Alvaro de Campos"(Fernando Pessoa)